Para cada identidade humana, as empresas já administram 109 identidades de máquina. O dado é do relatório 2026 Identity Security Landscape, da Palo Alto Networks, publicado em maio de 2026. As mesmas empresas esperam que o número de agentes de IA cresça 85% nos próximos 12 meses, acima da projeção para as identidades de máquina em geral, de 77%, e para as humanas, de 56%.
O problema não é a quantidade, é a forma. A maior parte dos agentes nasce sem identidade própria. Pesquisa da Cloud Security Alliance com 228 profissionais de TI e segurança, feita em janeiro de 2026, mostra que 43% das organizações rodam agentes em contas de serviço compartilhadas e 31% deixam o agente operar com a identidade de um usuário humano.
A leitura de arquitetura é direta. Agente sem identidade própria é credencial compartilhada com autonomia. Ele decide sozinho o próximo passo, e cada passo usa uma chave que ninguém desenhou para ele. A permissão precisa ser projetada antes do primeiro agente em produção, não depois do primeiro incidente.
O agente herda a chave de quem o colocou no ar
Existem três atalhos comuns para fazer um agente funcionar na primeira semana. Todos resolvem o prazo do projeto e todos criam o mesmo débito de arquitetura.
- Conta de serviço compartilhada: vários agentes e automações usam a mesma credencial técnica, com a soma das permissões de todos.
- Token amplo de integração: uma chave de API ou um token de acesso pessoal com escopo total, criado para testar e esquecido em produção.
- Conta do próprio usuário: o agente age com a sessão de quem o configurou e herda tudo o que essa pessoa pode fazer.
Os números da Cloud Security Alliance mostram o efeito. Entre os respondentes, 74% dizem que os agentes costumam receber mais acesso que o necessário, e 52% afirmam que os agentes herdam, ao menos às vezes, acessos criados para pessoas ou para outros sistemas. O agente não pede permissão excessiva. Ele recebe por padrão, porque o caminho curto é emprestar.
Credencial compartilhada apaga o autor da ação
A primeira perda é de atribuição. Quando cinco agentes usam a mesma chave, o registro de acesso diz que a chave agiu. Não diz qual agente, a pedido de quem, nem em qual tarefa.
A mesma pesquisa da Cloud Security Alliance aponta que 68% das organizações não conseguem distinguir com clareza a atividade de um agente da atividade de um humano. A VentureBeat Pulse Research, com 107 empresas ouvidas em junho de 2026, encontra o mesmo padrão por outro ângulo: só 32% dão a cada agente uma identidade própria, com escopo e gestão, e 69% compartilham credenciais em algum ponto da operação.
A segunda perda é de contenção. Se a chave é compartilhada, revogar o acesso de um agente desliga todos os que dependem dela. O time hesita, e o agente com problema continua rodando enquanto a decisão sobe de nível.
Esse é o elo que liga identidade a resposta a incidentes com agentes de IA. Desligar precisa ser barato, e só é barato quando cada agente tem a própria credencial, revogável sem efeito colateral sobre os outros.
Token de máquina já é a porta de entrada
O risco não é hipotético. Entre 8 e 18 de agosto de 2025, o grupo rastreado pelo Google Threat Intelligence Group como UNC6395 acessou instâncias de Salesforce de clientes usando tokens OAuth comprometidos da integração Salesloft Drift. O Google registra que o caso não decorre de vulnerabilidade na plataforma Salesforce.
Depois de exportar os dados, o grupo procurou segredos dentro deles: chaves de acesso da AWS, senhas e tokens do Snowflake. Uma credencial de máquina abriu o caminho para outras credenciais de máquina. Nenhum usuário foi enganado, nenhuma senha humana foi digitada.
Agora some autonomia a esse cenário. A OWASP incluiu no Top 10 para aplicações agênticas, publicado em dezembro de 2025, o item ASI03, abuso de identidade e de privilégio: credenciais vazadas permitem ao agente operar muito além do escopo pretendido.
A injeção de prompt, tratada em prompt injection e o perímetro de segurança da IA, decide o que o agente tenta fazer. A identidade decide o que ele consegue fazer. Com escopo mínimo, um sequestro de objetivo vira alerta. Com uma chave ampla e permanente, o mesmo sequestro vira vazamento.
Delegação não é personificação
O agente que age pelo usuário precisa de um modelo explícito de delegação. O padrão já existe há anos. A RFC 8693 do IETF, que define a troca de tokens no OAuth 2.0, separa dois conceitos que muitos projetos de agente misturam.
Na personificação, o agente recebe todos os direitos do usuário e se torna indistinguível dele. Na delegação, o agente mantém a própria identidade e fica registrado que ele age em nome do usuário. A especificação prevê a reivindicação act no token, que identifica quem está agindo e permite encadear agentes que chamam outros agentes.
A diferença é estrutural. Com personificação, o registro mostra apenas o usuário. Com delegação, mostra o agente, o usuário representado e a cadeia completa. É o fluxo que os provedores de identidade chamam de on-behalf-of.
A permissão efetiva também muda. Ela deixa de ser tudo o que o usuário pode fazer e passa a ser a interseção entre o que o usuário pode, o que o agente pode e o que aquela tarefa exige. O agente de atendimento não aprova crédito, mesmo quando o gerente que o acionou aprova.
Os controles que precisam existir antes do primeiro agente
Nada disso exige produto novo. Exige decisão de arquitetura tomada cedo, quando ainda é barata. Depois que vinte agentes rodam na mesma chave, separar identidades vira projeto de migração.
A Cloud Security Alliance mostra onde está a lacuna: só 22% aplicam os controles de acesso de forma muito consistente aos agentes, e 33% não sabem com que frequência as credenciais deles são trocadas.
- Identidade própria por agente, registrada em inventário, com dono nomeado e finalidade descrita.
- Escopo por ferramenta: cada ferramenta que o agente chama recebe só a permissão daquela operação, leitura separada de escrita.
- Credencial de curta duração, emitida por tarefa e expirada ao fim dela, em vez de chave permanente guardada em configuração.
- Delegação explícita quando o agente age por uma pessoa, com o usuário representado gravado no token e no registro.
- Trilha de auditoria por identidade: cada chamada registra o agente, o usuário representado, a ferramenta, os parâmetros e o resultado.
- Revogação individual, testada, que desliga um agente sem derrubar os demais.
O escopo por ferramenta conversa com o desenho de integração descrito em MCP como padrão de integração para agentes de IA: cada servidor de ferramenta é um ponto natural para aplicar a permissão. E o inventário é pré-requisito do resto, como tratamos em a IA que você não governa. Não se dá identidade ao agente que ninguém sabe que existe.
A NN desenha essa camada junto com o primeiro agente. Define a identidade de cada um, o escopo por ferramenta, o fluxo de delegação com o provedor de identidade do cliente e a trilha de auditoria que liga cada ação a um agente e a uma pessoa.
Agente sem identidade própria continua sendo credencial compartilhada com autonomia. A diferença entre um incidente contido e um vazamento está em uma decisão tomada antes da primeira subida: quem é o agente, o que ele pode fazer e em nome de quem.
Perguntas frequentes
O que são identidades não humanas?
São as identidades usadas por software, e não por pessoas: contas de serviço, chaves de API, tokens OAuth, certificados e, agora, agentes de IA. Segundo o relatório 2026 Identity Security Landscape da Palo Alto Networks, as empresas já administram 109 identidades de máquina para cada identidade humana.
Por que não usar a conta do próprio usuário para o agente de IA?
Porque o agente herda todas as permissões do usuário e se torna indistinguível dele no registro. Fica impossível saber se a ação foi da pessoa ou do agente, e um agente comprometido passa a ter todo o alcance daquela conta. A pesquisa da Cloud Security Alliance de 2026 mostra que 31% das organizações ainda deixam agentes operarem com identidade humana.
Qual a diferença entre delegação e personificação?
Na personificação, o agente assume a identidade do usuário e age como se fosse ele. Na delegação, o agente mantém a própria identidade e o token registra que ele age em nome do usuário. A RFC 8693, que define a troca de tokens no OAuth 2.0, formaliza essa distinção e prevê a reivindicação que identifica o agente que está agindo.
O que é o risco ASI03 do OWASP para aplicações agênticas?
É o abuso de identidade e de privilégio, um dos itens do Top 10 da OWASP para aplicações agênticas publicado em dezembro de 2025. Ele cobre agentes que operam com credenciais herdadas, vazadas ou amplas demais e, por isso, conseguem agir muito além do escopo pretendido.
Por onde começar a dar identidade própria aos agentes que já estão em produção?
Comece pelo inventário: liste cada agente, a credencial que ele usa e quem mais usa a mesma credencial. Depois separe primeiro o agente com maior poder de escrita, dando a ele identidade própria, escopo por ferramenta e credencial de curta duração. Por fim, teste a revogação individual e confirme que o registro mostra o agente e a pessoa representada.
Fontes
- Help Net Security: Palo Alto Networks 2026 Identity Security Landscape (109 identidades de máquina por humana)
- Cloud Security Alliance: Identity and Access Gaps in the Age of Autonomous AI (228 respostas, janeiro de 2026)
- VentureBeat Pulse Research: credenciais compartilhadas em agentes de IA (107 empresas, junho de 2026)
- OWASP GenAI Security Project: Top 10 for Agentic Applications (ASI03)
- Google Threat Intelligence Group: roubo de dados via tokens OAuth da Salesloft Drift
- IETF RFC 8693: OAuth 2.0 Token Exchange
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