Vinte por cento das empresas capturam 74% de todo o valor gerado por inteligência artificial. O número é da PwC, publicado em abril de 2026, e resume o estágio atual do mercado melhor do que qualquer projeção de gasto.
A leitura preguiçosa é que a IA não entrega o que promete. A leitura útil é outra. A IA entrega, e entrega muito, para um grupo pequeno de empresas que faz um conjunto específico de escolhas. O resto financia a curva de aprendizado do setor.
Este artigo é para quem senta na mesa que aprova o orçamento de IA e precisa saber em qual dos dois grupos a própria empresa está, antes de aprovar o próximo ciclo.
O acesso virou commodity, o retorno não
Qualquer empresa contrata hoje o mesmo modelo de fronteira que a concorrente contrata, com o mesmo cartão de crédito e a mesma latência. O insumo está distribuído. O resultado, não.
A pesquisa global com CEOs da PwC mostra o tamanho da distância. Apenas um em cada oito CEOs relata ver, ao mesmo tempo, aumento de receita e redução de custo vindos de IA. Sete em cada oito veem um lado, ou nenhum.
Quando o acesso à tecnologia deixa de ser o gargalo, a diferença de resultado passa a medir outra coisa: a qualidade das decisões de quem implanta.
Uso quase universal, impacto raro na última linha
Os dados de adoção enganam quem lê rápido. Segundo a pesquisa global da McKinsey sobre o estado da IA, com 1.993 respondentes, 88% das organizações já usam IA em pelo menos uma função de negócio. A adoção está praticamente resolvida.
A escala não está. Apenas cerca de um terço declara ter começado a escalar os programas de IA na organização. No nível corporativo, a maioria segue em fase de experimentação ou piloto.
O reflexo financeiro é direto. Na mesma pesquisa, 39% dos respondentes atribuem algum impacto de EBIT à IA, e a maior parte desse grupo aponta impacto abaixo de 5%. O que a McKinsey classifica como alto desempenho em IA, mais de 5% do EBIT atribuível somado a valor significativo percebido, corresponde a cerca de 6% dos respondentes.
Esse é o mesmo fosso que já tratamos em o abismo entre o piloto e a produção, agora visível na demonstração de resultado.
O que os líderes fazem diferente: redesenham o trabalho
A McKinsey testou 31 variáveis organizacionais para identificar o que separa o grupo de alto desempenho do restante. O fator com uma das maiores contribuições não é escolha de fornecedor nem volume de licença. É o redesenho fundamental dos fluxos de trabalho.
As empresas de alto desempenho têm quase três vezes mais probabilidade de redesenhar seus fluxos de trabalho na implantação de IA. Cerca de três quartos delas estão escalando ou já escalaram IA, contra um terço das demais.
A distinção é prática. Colocar um assistente ao lado do processo antigo produz economia marginal e satisfação de usuário. Reconstruir o processo em torno da capacidade nova produz margem. A primeira opção cabe em um piloto. A segunda exige decisão de quem manda no processo, não de quem opera a ferramenta.
Por isso a conversa sobre IA que fica restrita à área de tecnologia entrega tão pouco. Fluxo de trabalho é ativo de negócio, e só quem responde pelo resultado do processo tem autoridade para reescrevê-lo.
Ambição declarada é variável financeira, não retórica
O segundo separador aparece antes da execução, na intenção. Ainda na McKinsey, as empresas de alto desempenho têm 3,6 vezes mais probabilidade de declarar que pretendem usar IA para mudança transformacional do negócio nos próximos três anos, em vez de mudança incremental.
A PwC chega ao mesmo lugar por outro caminho. As empresas que capturam valor têm 2,6 vezes mais probabilidade de afirmar que a IA amplia a capacidade de reinventar modelos de negócio, e 1,8 vez mais probabilidade de usar IA para encontrar novas fontes de receita.
Há uma assimetria incômoda nesse dado. A agenda que começa e termina em corte de custo tem teto baixo por construção: ela só pode entregar o tamanho da despesa que existe hoje. A agenda que também persegue receita não tem esse teto.
Isso não significa gastar mais em tudo. Significa escolher onde a empresa constrói de verdade, o tema que discutimos em comprar ou construir IA, e aceitar que vantagem sustentável nasce do que só a sua operação sabe.
Os líderes também concentram orçamento
Ambição sem alocação é apresentação. Os dados mostram que o grupo de alto desempenho põe dinheiro onde põe a tese: mais de um terço dessas empresas destina acima de 20% do orçamento digital a iniciativas de IA, proporção bem superior à das demais.
O contexto macro reforça a urgência de escolher. O Gartner projeta gasto mundial com IA de US$ 2,5 trilhões em 2026. Em um mercado desse tamanho, orçamento pulverizado em dezenas de provas de conceito não gera vantagem em nenhuma delas.
Concentrar orçamento exige a disciplina inversa: encerrar o que não paga o próprio custo. Sem critério de morte para o piloto que não performa, o portfólio incha e a conta de inferência vira surpresa trimestral, como detalhamos em o custo da IA por inferência.
As perguntas que o board precisa fazer neste ciclo
A concentração de retorno tem uma consequência prática para quem governa a empresa. Não basta perguntar quanto se gastou com IA e quantas iniciativas existem. Esses dois números não distinguem os 20% dos 80%.
- Qual processo foi redesenhado por causa da IA, e não apenas assistido por ela?
- Quanto do EBIT deste ano é atribuível a IA, e quem assina esse número?
- Quantas iniciativas foram encerradas nos últimos doze meses, e por qual critério?
- Que parte da agenda persegue receita nova, e não apenas redução de despesa?
- Que dado proprietário sustenta a vantagem que estamos construindo?
A última pergunta costuma ser a mais reveladora, porque é a que separa capacidade comprada de capacidade própria. Já escrevemos sobre isso em o modelo virou commodity, seu dado é a vantagem.
A NN trabalha exatamente nesse ponto: transformar ambição de IA em processo redesenhado, com dono, meta e número que chega ao P&L. Não em mais um piloto que impressiona na demonstração e desaparece no trimestre seguinte.
A janela ainda está aberta, mas não fica
A concentração observada hoje não é lei natural. Ela reflete uma diferença de método que ainda pode ser copiada, porque o insumo continua acessível a qualquer empresa disposta a reorganizar o trabalho em volta dele.
O que muda com o tempo é o custo de entrada. Cada ciclo em que a empresa líder redesenha processo, acumula dado próprio e aprende a operar, ela sobe um degrau que o seguidor precisa vencer depois.
O retorno da IA está concentrado porque as decisões que produzem retorno também estão. Enquanto a maioria discute qual modelo contratar, a minoria decide qual processo deixa de existir na forma atual. Essa é a diferença que aparece nos 74%.
Perguntas frequentes
Por que só 20% das empresas capturam a maior parte do valor da IA?
Porque o acesso ao modelo virou commodity e o diferencial migrou para a implantação. A PwC calcula que 20% das empresas capturam 74% de todo o valor gerado por IA. O grupo à frente redesenha processos em vez de apenas assistir os antigos, persegue receita além de corte de custo e concentra orçamento em poucas frentes.
Adotar IA garante impacto no resultado da empresa?
Não. A pesquisa global da McKinsey mostra 88% das organizações usando IA em pelo menos uma função, mas apenas cerca de um terço escalando os programas. Entre os respondentes, 39% atribuem algum impacto de EBIT à IA, e a maioria desse grupo aponta impacto abaixo de 5%. Uso e valor são coisas diferentes.
O que mais diferencia as empresas que obtêm retorno com IA?
O redesenho dos fluxos de trabalho. Entre 31 variáveis organizacionais testadas pela McKinsey, esse é um dos fatores de maior contribuição para impacto de negócio. As empresas de alto desempenho têm quase três vezes mais probabilidade de redesenhar fundamentalmente seus processos ao implantar IA.
Focar IA apenas em redução de custo é um erro?
É um limite. A agenda de custo só pode entregar o tamanho da despesa existente. Os dados da PwC mostram que as empresas que capturam valor têm 2,6 vezes mais probabilidade de usar IA para reinventar modelos de negócio e 1,8 vez mais probabilidade de buscar novas fontes de receita. Custo e receita não se excluem, mas parar no custo baixa o teto.
Quanto do orçamento digital deve ir para IA?
Não existe percentual universal, mas há um padrão observado. Mais de um terço das empresas de alto desempenho identificadas pela McKinsey destina acima de 20% do orçamento digital a IA. O ponto relevante não é o percentual isolado, é a concentração em poucas frentes com dono e meta, em vez da pulverização em provas de conceito.
Fontes
- PwC - Decoding ROI from AI
- PwC - CEOs, to get real value from AI, put the right foundations in place
- McKinsey - The State of AI: Agents, innovation, and transformation
- McKinsey - The State of AI 2025 (relatório completo em PDF)
- Gartner - Worldwide AI Spending Will Total $2.5 Trillion in 2026
- PwC - 2026 AI business predictions
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Em qual dos dois grupos a sua empresa está?
A NN desenha e opera IA ligada a processo redesenhado, com dono, meta e retorno medido no P&L. Vamos mapear onde a sua operação perde valor hoje e qual processo justifica a próxima decisão de investimento.
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